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Maquiagem no ônibus? Qual o verdadeiro problema.

Mais uma vez o Midiamax vem dando destaque a uma série de reportagens envolvendo transporte coletivo, desta vez falando a respeito dos ônibus velhos ou usados que recebem pintura nova e supostamente são apresentados como ônibus novo na cidade. Para variar, diversos vereadores já deram aquelas declarações “indignadas”, mas como sempre, demonstrando total desconhecimento do assunto. A equipe do Ligados no Transporte conhece bem a frota da cidade e neste artigo traremos dados a respeito do que realmente acontece. 

Nos últimos 12 anos o sistema de transporte coletivo de Campo Grande passou por 3 pinturas diferentes, a antiga, da época de inauguração do SIT, era branca com um faixa reta vermelha, azul, verde ou amarela. Em 2006 começou a valer a pintura cinza, com a faixa estilizada nas cores vermelha ou azul, e 8 anos depois, com a licitação que inaugurou a era Consórcio Guaicurus, a pintura voltou a ser branca, com um arco vermelho ou azul e flores de ipês. Como o período que um ônibus pode rodar é de 10 anos e 15 no caso de articulados, chegamos a ter três pinturas diferentes rodando simultaneamente pela cidade. Hoje já não temos mais carros na primeira pintura, do SIT.

Veículo na pintura antiga.


O padrão atual é a pintura branca das flores, então todos os carros que chegam novos na cidade, chegam nesta pintura. Mas carros que vêm usados de outra cidade também recebem esta nova pintura padrão e houve casos também de ônibus que estavam na pintura cinza ou mesmo na antiga branca que passaram para nova pintura. Esta bagunça da pintura é culpa principalmente da prefeitura, em especial da época do prefeito Nelson Trad Filho, que em 8 anos a frente da cidade, mudou o padrão 2 vezes. Mudar 100% da frota para um novo padrão seria extremamente custoso, financeiramente a até mesmo burocraticamente por conta da mudança nos documentos.

Veículo novo na nova pintura.

Mas a pergunta que faço é o que há de irregular se o Consórcio pinta um carro que era prata para o novo padrão? Absolutamente nada.  Este, ao meu ver, é o grande problema da série de reportagens do Midiamax e das ameaças de se acionar o Ministério Público. Pode ser uma estratégia do Consórcio de parecer ter mais veículos novos do que tem, mas, se veículo não tiver mais de 10 anos, não há nada de irregular mudar sua pintura de prata para branco. Ou seja, estão desperdiçando tempo em algo que não dará em nada, sendo que temos coisas muitos mais importantes para se investigar e exigir nos serviços prestados pelo Consórcio.

Veículo ano 2005 na pintura nova, quando já deveria estar aposentado.

Hoje temos rodando na cidade 4 veículos com o prazo limite de idade vencido, sendo que destes quatro, um está na pintura nova e outros três na pintura prateada antiga. Isto é o que há de irregular no transporte hoje.

Veículo ano 2005, que já não deveria nem estar em circulação.

Na tabela a seguir temos uma lista dos veículos que foram pintados para o novo padrão da cidade.

Número do veículo
Ano de fabricação
Pintura antiga
Observações
1086, 1087 e 1088
2005
Branca SIT
Veículos articulados, podem rodar 15 anos.
3018
2005
Branca SIT
Veículo com limite de idade vencido
2126, 2127, 2128, 3112, 4100 e 4101
2006
Prata
Veículos articulados, podem rodar 15 anos.
2162
2007
Prata
Veículo articulado, pode rodar 15 anos.
1137
2009
Prata
Veículo veio usado de São Vicente em 2012. Rodou com a pintura prata pela Auto Viação Floresta e em 2014 passou para Viação Cidade Morena na pintura nova.
2210
2009
Prata
Veículo veio usado de Ribeirão Preto em 2012. Rodou com a pintura prata pela Auto Viação Floresta e em 2014 passou para Viação São Francisco na pintura nova.
2332, 2333, 2334
2010
Usados de outra cidade
Veículos vieram de Maringá e passaram a rodar em Campo Grande em 2014
Dados da tabela foram obtidos em anos de observações e pesquisas da equipe Ligados no Transporte.

Veículo remanejado do Paraná para a Viação São Francisco

Como lição deste caso, fica o fato de que realmente o Consórcio não disponibiliza para ninguém nenhum tipo de dado de sua frota, como fizemos acima. Estes dados deveriam ser públicos. Quantos ônibus tem a frota? Qual a idade de cada um dos veículos? O modelo? Informações que nos tempos de hoje fazem parte de qualquer política mais transparente. E não deveria divulgar só informações da frota, mas também informações das linhas, quantos passageiros passam por cada linha? Pela catraca dos terminais? Como varia a demanda dia a dia, permitindo comparar variação de demanda dia de semana e fim semana, começo do mês e fim do mês. Estas são informações importantes para aprofundarmos no debate. E minha crítica aos vereadores é por que ao invés de ficarem reclamando e fazendo ameaças vazias, não apresentam projetos de lei que obrigam as empresas a fornecerem estes dados? Ou assim como o consórcio preferem que eles fiquem escondidos?

Senhores vereadores, vocês tem poder de agir e não são declarações revoltadas que irá nos convencer, são atitudes. Parem de reclamar e usem o poder de vocês.


PS: Em São Paulo, os vereadores criaram um projeto de lei que obriga todos os veículos a terem escrito qual seu ano de fabricação e operação, o que permite a própria população fiscalizar isto.

Comentários

  1. Para contribuir, o único local que permite consultar esse tipo de informação, muito graças a colaborações voluntárias de seus integrantes, é o ViaCircular.

    Aqui - http://viacircular.com.br/site/?page_id=2379 - é possível consultar todos os veículos em operação e os retirados do sistema.

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