Pular para o conteúdo principal

Sobre os vereadores e as reportagens nos ônibus


Por Eric Moises
Recentemente o portal Midiamax iniciou uma série de reportagens baseadas em um desafio feito aos vereadores para irem trabalhar um dia de ônibus, acompanhados pela equipe do portal e transmitido em lives pela Facebook. A série de reportagens ocorre a véspera de uma audiência pública sobre transporte coletivo que ocorrerá na câmara municipal na manhã do dia 15 de julho de 2019. O questionamento feito pela equipe dos Ligados é: de que maneira isso contribui para evolução do debate?

Vereadores de Campo Grande em 2011 na sessão que aprovou por 17 votos favoráveis e 2 contrários a licitação que seria vencida pelo Consórcio Guaicurus para exploração do sistema de transporte coletivo de Campo Grande. (Foto: Isais Medeires - Campo Grande News)

Um ponto interessante a ser discutido sobre esse tipo de reportagem é a mensagem cultural que ela passa. Ao mostrar um dia dos vereadores nos ônibus com tanto alarde, ressalta uma visão de distanciamento entre pessoas que tem boas condições financeiras e o transporte público, dando ares de evento a algo que deveria ser mais comum e incentivado. Infelizmente no Brasil predomina-se uma cultura do uso de ônibus somente em casos de extrema necessidade, de meio de transporte de quem não tem condições de se locomover pela cidade de outra forma. Essa cultura que incentiva o deslocamento por transporte particular, além dos conhecidos impactos como os longos congestionamentos, afeta também a qualidade dos serviços prestados pelas empresas de ônibus. Em Campo Grande, a Agetran e o Consórico Guaicurus sabendo que as pessoas só andam de ônibus por necessidade, não se esforçam em buscar alternativas de melhorar o serviço, oferecem ônibus da pior qualidade, itinerários longos e pouco racionais, não se preocupam com a lotação das linhas ou com os longos tempo de espera no ponto de ônibus, afinal quem precisa mesmo andar de ônibus, terá que fazer isso apesar de todas as adversidades. Já quem adquire outros meios de se locomover esquece os problemas, distancia-se dos ônibus e ajuda a criar um ciclo vicioso em que as empresas perdem passageiros e mesmo assim não são cobradas em relação a qualidade dos serviços prestados. Essa cultura já vem sendo combatida em países desenvolvidos e em cidades cujo problema de trânsito já é muito mais grave, nelas pessoas com boas condições financeiras passam a ver o transporte público como algo viável e de extrema importância para o bom funcionamento da cidade. Cabe a todos, principalmente a nossos políticos e também a imprensa, ajudarem a mudar essa cultura.

Alguns pontos positivos também podem surgir desse tipo de material, principalmente o de despertar mais interesse no público em geral e consequentemente dos políticos  a respeito do assunto. Tradicionalmente o debate sobre transporte coletivo de Campo Grande sempre foi superficial, quase inexistente e talvez essa seja uma oportunidade dos vereadores se aprofundar nisso. Obviamente que andar uma vez de ônibus está muito longe de ser um aprofundamento, os problemas são vários, muda de bairro pra bairro, de horário para horário e exige um bom estudo para ser entendido. Nas próprias reportagens já divulgadas temos dois exemplos de problemas bem distintos. 
Vereador Júnior Longo, presidente da comissão de transporte e trânsito, durante a série do reportagens do portal Midiamax

O vereador Chiquinho Teles utilizou a linha 061 (T. Moreninha/ Shopping CG), uma das mais caóticas linhas da cidade, em que podemos observar a grande lotação do ônibus, que para quem conhece, sabe que se estende ao longo de todo dia. Diversas perguntas podem serem feitas a partir de algumas observações e reclamações. Por que uma linha de lotação tão constante não recebe ônibus articulado? Aliás, se existe linhas tão lotadas assim, por que os articulados estão sumindo da cidade? Se os usuários reclama tanto quando a linha passa no Terminal Guaicurus, o que acontece para a linha encher tanto naquele terminal? O atendimento das outras linhas do Terminal Guaicurus tem sido o suficiente? E por que as linhas expressas da região da Moreninhas que não adentram o terminal Guaicurus tem perdido tantos ônibus nos últimos anos? O Terminal Moreninha é extremamente mal localizado, mas foi construído em 2001, por que ao longo de 18 anos o governo municipal nunca tomou uma providência quanto a isso? E o terminal Cafezais, que seria a solução desse problema de péssima localização do Terminal Moreninha, vai sair um dia ou a prefeitura vai continuar ignorando investimentos em obra de infra-estrutura de transporte coletivo?

Vereador Chiquinho Teles andando na linha 061 durante reportagem do portal Midiamax
 
Já o vereador Vinícius Siqueira utilizou a linha 402 (Santa Carmélia/ Shopping)* em sua live, uma linha oposta a 061, que não sofre nenhum problema de lotação, mas em compensação na maior parte do dia tem intervalo de um ônibus ao outro de 1 hora e 40 minutos. E diversas perguntas também podem ser feitas. Por que intervalos tão longos? Como fica a situação de uma pessoa que depende desse linha e perde o ônibus, vai ter que esperar o próximo por quase 2 horas? Se a demanda da linha é pequena, por que rodar com ônibus tão grande? Não poderia substituir por ônibus menores mas em maior quantidade?  Se melhorar o atendimento da linha não seria possível atrair mais passageiros a ela? Aliás, pra quem conhece a linha, por que a volta dela é tão grande e extensa? Não seria possível racionalizar seu trajeto que dá muitas voltas por vários bairros? 

Trajeto da linha 402, utilizada pelo Vereador Vinícius Siqueira. Linha com um dos trajetos mais longo e confuso e da cidade.
São alguns dos questionamentos feitos há anos pela equipe do Ligados, na expectativa de fazer o debate evoluir para que tanto prefeitura quanto o Consórcio Guaicurus sejam mais cobrados.

Link das reportagens já publicadas pelo Midiamax:
Chiquinho TelesVinícius Siqueira e Júnior Longo
* a linha utilizada pelo vereador Vinícius Siqueira na live divulgada no Facebook, que ocorreu no trajeto de volta, foi a 402. Já na matéria escrita pelo Midiamax, que acompanhou a ida do vereador até a Câmara, foram utilizadas as linhas 416 (Santa Carmélia/ Planalto) e 082 (T. Aero Rancho/ Shopping CG). 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Fim da viação São Francisco e unificação das empresas do consórcio

Desde o primeiro dia útil do ano, algo vem acontecendo nos bastidores do transporte coletivo da cidade. A viação São Francisco, uma das (se não a) primeiras a trazer o transporte coletivo de passageiros para Campo Grande lá nos ainda anos 1940/1950, fechou de vez as suas portas, dando fim a toda sua história. O prédio estava com um anúncio de venda do terreno há um bom tempo, e, bem, parece que ele foi finalmente vendido. Fachada do pátio da garagem da Viação São Francisco, em Abril de 2023. Foto: Google Maps.

Sistema de cores do transporte de Campo Grande: pode enterrar.

Os mais saudosistas se lembram com carinho quando em 1992 foi inaugurado o SIT em Campo Grande, sistema integrado de transportes, com a construção dos terminais Bandeirantes e General Osório. Este sistema, baseado no de Curitiba, trouxe uma nova divisão de linhas e alterou a pintura dos ônibus, antes cada empresa tinha sua pintura, após a implementação deste sistema, a pintura foi padronizada com 4 cores, eram elas: Amarelo: Linhas convencionais, que fazem trajeto centro-bairro.  Vermelho: Linhas troncais, que fazem trajeto terminal-terminal passando pelo centro ou terminal-centro.  Verde: Linhas interbairros, que fazem trajeto terminal-terminal mas sem passar pelo centro.  Azuis: Linhas alimentadoras, fazem trajeto bairro-terminal.

Nos bastidores, consórcio planeja novo aumento de tarifa e demissão de funcionários

Em um post feito em uma página do Facebook, do dia 26/05, uma pessoa, que não quis se identificar, informou que nos bastidores, o consórcio está preparando mais uma jogada para conseguir mais dinheiro - seja ele do usuário do transporte coletivo, seja ele do poder público. Registro de uma das últimas compras de novos veículos. Foto: Arquivo